
Quem já participou de um treinamento corporativo provavelmente viu em algum slide uma pirâmide com números: lembramos 10% do que lemos, 20% do que ouvimos, 30% do que vemos, e assim por diante, até 90% do que fazemos. A imagem costuma vir acompanhada do nome de Edgar Dale. O problema é que Dale nunca publicou esses números. Em 2026 completam-se 80 anos da primeira edição do livro em que ele apresentou o cone da experiência, e a data é uma boa ocasião para separar a ideia original do mito que se colou a ela.
Edgar Dale foi um educador norte-americano, professor da Universidade Estadual de Ohio, que dedicou boa parte da carreira ao estudo dos meios audiovisuais no ensino. Em 1946, publicou o livro Audio-Visual Methods in Teaching, uma obra didática voltada a professores que queriam usar filmes, rádio, gravuras, exposições e outros recursos em sala de aula. O livro teve edições revistas nas décadas seguintes.
Foi nessa obra que apareceu o cone da experiência, um diagrama que organizava os recursos de ensino segundo o grau de concretude da experiência que proporcionavam.
Na base do cone ficavam as experiências diretas e com propósito, aquelas vividas na prática, com todos os sentidos. Subindo, apareciam experiências simuladas, dramatizações, demonstrações, visitas de estudo, exposições, filmes, rádio e imagens. No topo, os símbolos visuais e, por fim, os símbolos verbais, como palavras escritas e faladas.
A lógica era de abstração crescente, e não de eficiência decrescente. Dale queria mostrar que os recursos variam em quanto dependem de experiência concreta ou de representação simbólica. Ele próprio advertiu que o cone era uma metáfora visual e não deveria ser levado ao pé da letra, nem entendido como uma hierarquia de valor. Uma aula expositiva bem conduzida não era, para ele, inferior a uma visita de estudo; cada recurso tinha seu lugar, e os melhores resultados vinham da combinação.
Nenhuma das edições do livro trazia percentuais de retenção. Os números começaram a circular associados ao cone a partir do fim dos anos 1960, em publicações que não apresentavam pesquisa que os sustentasse. Com o tempo, foram reproduzidos em apostilas, apresentações e materiais de treinamento, muitas vezes com variações: em algumas versões, a base passou a se chamar "aprender fazendo" ou "ensinar aos outros", com retenção de 90%.
Pesquisadores que rastrearam a origem dessas porcentagens não encontraram estudo primário que as justifique. Há sinais de alerta visíveis nos próprios números:
As porcentagens sobrevivem porque parecem confirmar algo que muita gente intui: praticar ajuda a aprender. E há evidências sólidas de que participação ativa, prática e esforço de recordação favorecem a retenção. O problema é transformar essa tendência em números precisos e universais, e atribuí-los a um autor que não os escreveu.
O uso do mito tem consequências práticas. Ele pode levar a desvalorizar a leitura e a explicação bem feita, como se apenas "fazer" produzisse aprendizado. Em muitos temas, especialmente os novos para o aprendiz, uma explicação clara e exemplos resolvidos são justamente o que torna a prática posterior produtiva.
Descontado o mito, a ideia original de Dale continua útil para quem planeja cursos. Ela lembra que:
Oitenta anos depois, o cone de Dale merece ser lembrado pelo que realmente propôs: um convite a pensar a variedade de experiências no ensino.
Não. O cone da experiência, publicado em 1946, não trazia percentuais de retenção. Os números foram associados ao diagrama anos depois, sem pesquisa que os comprove.
Não. O cone organiza os recursos do mais concreto ao mais abstrato, sem classificá-los como melhores ou piores. O próprio autor advertiu contra essa leitura.
Funciona, e há boas evidências de que prática e participação ativa ajudam a reter. O que não se sustenta são as porcentagens exatas atribuídas a cada forma de aprender.
Fame Treinamentos, 2026.